Regina
Blog Somos Maré

"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

O Inglês na escola.

por Kid´s Home - 8 outubro, 2018

Por que uma escola inovadora, criativa e multietária tem um nome gringo?

É uma escola americana?
É uma escolinha de línguas?
É uma escola bilíngüe de imersão?
Mas, ensinam mesmo inglês?

Quando começamos a escola, no ano 2000, minha primeira sócia era inglesa. Para ela era mais que óbvio que somaríamos conhecimentos. Meu maior desejo era fazer uma escola onde as crianças pudessem ser livres e felizes. A neurociência afirma que não há motivos para excluir uma segunda língua do dia a dia das crianças, por isso buscamos um jeito natural e respeitoso de envolver as crianças num ambiente realmente bilíngüe, ou seja, num ambiente em que a oralidade é praticada através de duas línguas, o português e o inglês.

Não queríamos copiar iniciativas que não condizem com a nossa cultura e, muito menos com o que acreditamos sobre o processo de desenvolvimento infantil. Sobretudo somos uma escola brasileira! Valorizamos a nossa cultura, tradições e costumes. E, precisamos reconhecer a rica diversidade cultural desse país, que transcende quaisquer padrões, lindamente.

Conhecendo as necessidades de vínculo afetivo das crianças para que se sintam bem num espaço, para que se soltem e se envolvam em brincadeiras e atividades, sabíamos que é o professor do dia a dia, aquele que tão bem conhece cada um dos seus pequenos , quem precisa falar também a segunda língua com naturalidade. Sem aulas, sem horários marcados.
E, levando em consideração que toda aprendizagem demanda previamente nutrição orgânica e afetiva, encontramos uma forma de acolher e estimular sem prejudicar o equilíbrio psicológico das crianças. As crianças de nosso contexto têm a nutrição orgânica assegurada, então juntamente com as famílias buscamos oferecer a nutrição afetiva. Nossa função é atentar para as etapas do desenvolvimento, visto que as crianças chegam à escola ainda bebês, focados em si, apegados à figura materna e com a linguagem verbal começando a surgir. Compreendemos que a língua materna funciona como acalento e a segunda língua como desafio e, é desta forma que usamos as duas línguas. Durante o período de adaptação usamos somente a língua da família, para dar aconchego e pertencimento, para oferecer o conforto emocional que oportuniza o segundo rompimento do cordão umbilical.

Abraçamos, acolhemos e resolvemos conflitos em português, com o intuito de oferecer suporte para os momentos em que a afetividade é a maior necessidade. Quando a criança está nutrida emocionalmente usamos a segunda língua, prioritariamente no brincar, desenhar, pintar…

O objetivo da escola ao oferecer a segunda língua não é somente a aquisição de um novo idioma e sim, que as crianças conheçam outra cultura e tenham liberdade de se expressar como quiserem. Sabendo que as habilidades socioemocionais são TODAS na língua materna, a criança ouve o inglês na conversa entre professores, nos momentos de brincadeiras e de atividades de grupo. Essa metodologia respeita a forma como a criança quer se comunicar e ainda permite que futuramente possa estudar inglês com uma base de compreensão do idioma e o melhor de tudo: com uma memória afetiva, dos tempos de brincar.

É bastante difícil para os professores ligar e desligar o relê da segunda língua, uma hora português e noutra o inglês. Ainda mais por tratar-se de um ambiente tão caloroso como a educação infantil, que cobra a língua mãe. Montamos estratégias diversas ao longo desses anos, repensamos o uso da segunda língua a cada Semana Pedagógica. Mas a grande pergunta que sempre nos garante a continuidade é: Do jeito que praticamos o inglês é bom para as crianças?

Além disso vale ressaltar que há um preconceito em relação à escola bilingue. Muitas pessoas nos questionam: Para que essa escola é bilingue, se ao inglês está associada uma vida consumista, com valores opostos aos da escola?
Desconstruir o preconceito ao bilinguismo faz parte de nosso desafio e está acontecendo junto com a maré da transformação, naturalmente. Sabemos que a naturalidade da aprendizagem das crianças, fato confirmado em nosso dia a dia, não condiz com cobranças de aulas e nem com a imagem mercadológica, que rejeitamos. Como continuar oferecendo às crianças possibilidades e bons desafios referentes à linguagem verbal e, simultaneamente desvincular-nos da desvirtuada compreensão associada a esta questão? Seguimos buscando uma resposta!

Não queremos que o nome da escola, ou o fato de praticarmos o bilinguismo, afaste as famílias e não gere o interesse em, ao menos, virem nos conhecer. Sonhamos com a maré de transformação e renovação no mundo da educação, comunidades de aprendizagem, tribos educando crianças.
A língua? Pode ser o tupinambá ou nhengatu, o português ou espanhol, o inglês ou alemão. Pouco importa! Importa que a comunicação seja aberta e verdadeira com o respeito à voz e à escuta.

Regina Pundek

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sobre a Maré

Mandala

Por uma educação que contribua para a formação de sujeitos pacíficos, amorosos, autônomos, respeitosos, empáticos, atuantes, pensantes, batalhadores, corajosos, lúcidos e decididos. Capazes de atuar no mundo de maneira crítica e sensível.

Ler mais...

Siga-nos

Estudar ou Aprender!?

É possível fazer educação sem escola?

Nosso país tem sérios problemas na Educação.  Entre eles cito: a cultura escolar elitista, a falta de visão estratégica, a desinformação da sociedade, interesses corporativistas, fracasso e evasão escolar, despreparo de professores e ainda a baixa qualidade de ensino. Reconhecer esses problemas é o primeiro passo para a mudança.  Um primeiro passo de um longo caminho, mas que garante a  perspectiva da busca por soluções.

Há escolas e professores com uma indignação pungente que utilizam novas práticas, que refletem, que se movem e comovem, que se unem e reúnem em nome de uma educação democrática, libertária e criativa. A necessidade do apoio das comunidades é grande. A divulgação das propostas inovadores, que oferecem luz à questão é uma possibilidade de ajuda.

Vale contar a experiência vivida por quatro brasileiros que viajaram por nove países para conhecer centros de aprendizagem avançados. Essa história rendeu o livro “Volta ao mundo em 13 escolas” que será lançado em outubro, e tem por objetivo “alargar horizontes”, como define o jornalista André Gravatá, usando uma expressão do escritor Manoel de Barros.

O foco no vestibular e na competitividade de um suposto futuro profissional é a grande distorção que impede o fluxo da renovação que vem surgindo. A partir do momento em que se decide não sistematizar um método de trabalho, mas sim fazer com que as crianças construam espontaneamente o aprendizado, surge uma nova maneira de educar.  Educar para a vida e para o hoje é  permitir que o conhecimento seja realmente construído.

Precisamos sair da questão de dificuldade de aprendizagem e olhar para a dificuldade de “ensinagem”.  Só podemos ensinar aquilo que desejam aprender, o resto é memorização e não aquisição de conhecimento. De nada valem os conteúdos programáticos sem o interesse do aluno.  Esse sujeito a quem chamam de estudante, não deseja estudar, visto que o que o que querem lhe incutir cognitivamente não lhe desperta interesse.  Esse sujeito, que merece o respeito de todos, cuja curiosidade deveria ser mantida,  precisa ser visto como um aprendiz!

A diferença entre estudar e aprender traz respostas em si mesma.  Esse é o paradigma a ser quebrado pelas famílias, escolas e professores. A partir desta quebra a educação formará homens e mulheres que primeiramente saibam se expressar, sejam capazes de tomar decisões, de arcar com responsabilidades e de serem felizes.

Não queremos mais uma escola na qual o aluno é treinado para fazer parte de um mundo de produtores calados e conformados.  Não queremos uma escola que disciplina rigidamente, uniformiza no sentido mais amplo da palavra e que tenta anular diferenças. Não queremos mais esta escola que cala a alma de seus aprendizes para encaixá-los num sistema de vencedores e vencidos, opressores e oprimidos.

Para mudar o mundo precisamos rever nossos princípios e valores, perceber que a criatividade e a flexibilidade são práticas que urgem na vida deste novo cidadão, que conhece seus direitos, respeita os alheios e participa da construção de sua história social.

Cabe às famílias compreender esta evolução e encontrar e participar de escolas onde seus filhos sejam aceitos como aprendizes interessados e participativos, características que as crianças possuem naturalmente.  Escolas que fomentem a curiosidade e a liberdade intelectual, e façam da vida escolar uma vida alegre e prazerosa.

Cabe as instituições escolares a renovação de sua prática metodológica, numa quebra de muros para além do concreto.  Cabe aos professores a certeza de que é a firmeza dos propósitos e o amor que asseguram a construção do mundo melhor.

Regina Pundek