Regina
Blog Somos Maré

"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Em dezembro último fui ao teatro assistir pela segunda vez A Alma Imoral, uma releitura do livro homônimo do rabino Nilton Bonder.  O grande questionamento deste enredo é a possibilidade, ou não, de sermos múltiplos, pouco convictos, ambíguos, divididos, indefinidos, ou melhor, exemplificando e usando as palavras da atriz, Alice Niskier: judeus e budistas simultaneamente. Naqueles intensos minutos tive a possibilidade de vivenciar a compreensão de que é a nossa mente quem nos julga, liberta ou condena, que o certo ou o errado nem sempre representam o justo ou o injusto, que o preconceito é ranço social por falta de aceitação às diferenças.  A voz da atriz está ainda a ecoar na minha … alma.

Aos meus nove anos, pela primeira vez, percebi com clareza, o que é o preconceito e a rejeição social.  Uma coleguinha de classe que acabara de entrar na escola, vinda de outra cidade era impedida de entrar nas brincadeiras do recreio.  Perguntei por que e outra colega me respondeu:  Porque a mãe dela é desquitada! Lembro de que em casa  perguntei aos meus pais o que era “desquitada”  e depois “por que não se pode brincar com uma criança filha de mãe desquitada”.  Naquele tempo, em 1967, lá na pequena Florianópolis, os desquitados era uma novidade merecedora de desconsideração. Quanta coisa mudou desde então! Mas quantos sofreram para que assim o fosse.  Aquilo que era então uma aberração atualmente é comum.  Hoje muitas são as crianças em idade escolar que têm pais separados. E a vida segue em frente buscando acalentar desconfortos e aliviar frustrações.  Afinal é assim que se cresce! O que ontem foi preconceito hoje é banal.  Os preconceitos de hoje no futuro não existirão.

Em São Paulo anualmente acontece a Parada Gay. Cada vez mais existem movimentos em defesa dos direitos dos Homosexuais.  Cada vez mais encontramos pelas ruas, casais do mesmo gênero explicitando sua afeição.  Cada vez mais se declara a necessidade de revermos posturas e valores.

Questionaram-me outro dia se as crianças são preconceituosas.  Asseguro-lhes que as crianças são sinceras e ingênuas.  Repetem o que vêem e ouvem.  Algumas famílias estranham que seus filhos manifestem preconceitos afirmando que eles, os pais, não são preconceituosos.   As crianças são antenas parabólicas; absorvem até mesmo informações subliminares. Eu diria, inclusive, que quando uma mãe aperta mais intensamente a mão de seu filho ao cruzar na calçada com uma pessoa por quem mantém preconceito, faz com que aquela criança reconheça que ali mora a rejeição.  E, numa primeira oportunidade ela estará se posicionando contra aquele tipo de pessoa.  Não são necessárias palavras para oferecermos modelos aos nossos filhos.  Estudos apontam que as crianças adquirem consciência das diferenças raciais, em média, dos três aos cinco anos, e, com o tempo, passam a atribuir julgamentos aos diferentes grupos, com base na observação do meio em que vivem.

Para terminar vou lhes contar uma história verdadeira que mostra o tamanho da alma das crianças: Vitória, menina marrom, aos cinco anos, fantasiava que era um cavalo, saltava e pinoteava pelo quintal da escola carregando amigos nas costas.  Era preciso que as professoras interrompessem o jogo, ou passava de seus próprios limites físicos, chegando à exaustão. Alex, loiríssimo, teve paralisia cerebral ao nascer e as seqüelas colocaram-no numa cadeira de rodas e num mutismo quase total. Quando os dois se encontravam, seus olhares comungavam.  Vitória dizia:  “Ele é meu namorado!  Quero que ele ande no meu cavalo!”  E por alguns minutos, durante aquela cavalgada surreal, seus rostos se inundavam de uma alegria tão intensa que as pessoas ao redor mareavam os olhos.  Quantas vezes me senti pequena ao lado deste casal!

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Estudar ou Aprender!?

É possível fazer educação sem escola?

Nosso país tem sérios problemas na Educação.  Entre eles cito: a cultura escolar elitista, a falta de visão estratégica, a desinformação da sociedade, interesses corporativistas, fracasso e evasão escolar, despreparo de professores e ainda a baixa qualidade de ensino. Reconhecer esses problemas é o primeiro passo para a mudança.  Um primeiro passo de um longo caminho, mas que garante a  perspectiva da busca por soluções.

Há escolas e professores com uma indignação pungente que utilizam novas práticas, que refletem, que se movem e comovem, que se unem e reúnem em nome de uma educação democrática, libertária e criativa. A necessidade do apoio das comunidades é grande. A divulgação das propostas inovadores, que oferecem luz à questão é uma possibilidade de ajuda.

Vale contar a experiência vivida por quatro brasileiros que viajaram por nove países para conhecer centros de aprendizagem avançados. Essa história rendeu o livro “Volta ao mundo em 13 escolas” que será lançado em outubro, e tem por objetivo “alargar horizontes”, como define o jornalista André Gravatá, usando uma expressão do escritor Manoel de Barros.

O foco no vestibular e na competitividade de um suposto futuro profissional é a grande distorção que impede o fluxo da renovação que vem surgindo. A partir do momento em que se decide não sistematizar um método de trabalho, mas sim fazer com que as crianças construam espontaneamente o aprendizado, surge uma nova maneira de educar.  Educar para a vida e para o hoje é  permitir que o conhecimento seja realmente construído.

Precisamos sair da questão de dificuldade de aprendizagem e olhar para a dificuldade de “ensinagem”.  Só podemos ensinar aquilo que desejam aprender, o resto é memorização e não aquisição de conhecimento. De nada valem os conteúdos programáticos sem o interesse do aluno.  Esse sujeito a quem chamam de estudante, não deseja estudar, visto que o que o que querem lhe incutir cognitivamente não lhe desperta interesse.  Esse sujeito, que merece o respeito de todos, cuja curiosidade deveria ser mantida,  precisa ser visto como um aprendiz!

A diferença entre estudar e aprender traz respostas em si mesma.  Esse é o paradigma a ser quebrado pelas famílias, escolas e professores. A partir desta quebra a educação formará homens e mulheres que primeiramente saibam se expressar, sejam capazes de tomar decisões, de arcar com responsabilidades e de serem felizes.

Não queremos mais uma escola na qual o aluno é treinado para fazer parte de um mundo de produtores calados e conformados.  Não queremos uma escola que disciplina rigidamente, uniformiza no sentido mais amplo da palavra e que tenta anular diferenças. Não queremos mais esta escola que cala a alma de seus aprendizes para encaixá-los num sistema de vencedores e vencidos, opressores e oprimidos.

Para mudar o mundo precisamos rever nossos princípios e valores, perceber que a criatividade e a flexibilidade são práticas que urgem na vida deste novo cidadão, que conhece seus direitos, respeita os alheios e participa da construção de sua história social.

Cabe às famílias compreender esta evolução e encontrar e participar de escolas onde seus filhos sejam aceitos como aprendizes interessados e participativos, características que as crianças possuem naturalmente.  Escolas que fomentem a curiosidade e a liberdade intelectual, e façam da vida escolar uma vida alegre e prazerosa.

Cabe as instituições escolares a renovação de sua prática metodológica, numa quebra de muros para além do concreto.  Cabe aos professores a certeza de que é a firmeza dos propósitos e o amor que asseguram a construção do mundo melhor.

Regina Pundek