Regina
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"A educação precisa mudar. Enquanto os estudantes forem cobrados a memorizar para o vestibular, a aprendizagem é reducionista.
Os aprendizes merecem mais." Regina Pundek

Empatia e Comunicação

por Kid´s Home - 11 outubro, 2018

As nossas referências são a nossa força, a nossa fraqueza, nosso jeito de olhar, ouvir, agir, perceber o mundo e as pessoas.  Ao longo de toda a vida nos inspiramos em modelos, sejam eles profissionais ou pessoais.   Não é somente a criança que é influenciada constantemente pelos modelos, em especial daqueles mais próximos.  Nós, adultos, também sofremos essa influência.  A criança manifesta claramente ao brincar de faz de conta, quando representa personagens de seu cotidiano e assim reelabora seus sentimentos e sua percepção da função de cada um dentro do contexto familiar.

Estes modelos influenciam a comunicação entre as pessoas, visto que a compreensão do que se ouve só acontece depois que neurologicamente é feita a associação e comparação com os contextos similares. De maneira inconsciente são resgatadas na memória as vivências anteriores que então são confrontadas com o fato presente. A referência vai ser checada para então acontecer a compreensão e a reação.  Não reagir é também agir. 

Na comunicação as reações estão saturadas de vivências tanto para um interlocutor como para o outro. Os cérebros ao ouvir comparam e associam buscando o entendimento.  A compreensão é individual e por vezes torna-se tendenciosa e preconceituosa, visto que cada um a elabora dentro de seus próprios parâmetros.  Ouvimos interpretando com base naquilo que somos, e somos formados pelos modelos que recebemos, copiando-os ou rejeitando-os, eles são parte de nós. Por isso, muitas vezes, as conversas não seguem os rumos que nos parecem os mais lógicos, práticos, objetivos ou calmos. Dentro desta percepção precisamos compreender que aquilo que consideramos lógico, prático, objetivo ou calmo precisaria ser também a referência do nosso interlocutor para que a conversa contente a ambos.

Se os indivíduos forem pessoas cultural ou socialmente muito diferentes, então a coisa complica mais ainda!  As exigências para que haja diálogo e compreensão serão imensas.  Além dos fatores já apontados acima acontecerão também outros dificultadores como linguagem e vocabulário.

Afinal como se realiza a comunicação humana? Por que nos permitimos relacionar e conviver? É simples.  O que nos encanta são as nossas diferenças!  Quando nos interessamos ou mesmo nos enamoramos de alguém ou de algo isto acontece porque apreciamos o que nos completa, complementa ou desafia a buscar novos conhecimentos.  Assim surge a sinergia que move reciprocamente as pessoas no intuito comum. Há um desejo de estar junto, saber o que o outro pensa, conhece, sente e como age e reage.

Assim fica mais fácil entendermos porque os relacionamentos tendem a terminar depois de algum tempo. Na medida em que um se torna muito conhecedor do outro, esvai-se parte do encantamento, da vontade de compreender, de deixar de lado as velhas referências e enxergar o mundo com os olhos da outra pessoa. Garantidamente aquilo que hoje os afasta, em princípio é o que os atraiu.  Se antes as diferenças atraiam, a partir do momento em que as pessoas se conhecem bem, estas mesmas diferenças começam a sufocar, pois surge o desejo, mesmo que inconscientemente, de que o outro nos compreenda integralmente, seja nossa alma gêmea, sinta, pense e aja como nós.  Este comportamento torna-se arraigado àquela relação específica. 

Daí surge a necessidade de uma espécie de inteligência relacionada à habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência alheia. É a empatia. Somente quando há empatia, conseguimos uma resposta afetiva apropriada à situação da outra pessoa, e não à própria situação.

Retornando a infância.  O ser humano nasce egocêntrico e a sua capacidade de conviver, de aceitar o outro é um processo longo.  A criança começa olhando para si, se reconhecendo como indivíduo singular dentro de um contexto social. Precisa aprender a expressar seus sentimentos, a buscar respostas para suas dúvidas, e também a ouvir,  aprender a criar regras e a respeitá-las.  E inserido neste movimento educativo tem-se que despertar nela a empatia pelo seu semelhante. Assim nossa ação será holística e o benefício não se restringirá somente a esta criança, mas se estenderá a toda a sociedade.

A empatia qualifica a comunicação e facilita o respeito à diversidade cultural, biológica e social. A empatia valoriza os relacionamentos e orienta para que toda a maneira de ser seja aceita. A empatia qualifica o olhar sobre os que assumem o poder, estimulando que as pessoas se posicionem exigindo o que é justo para a sociedade.

Dizer que as crianças são o futuro da nação tornou-se um chavão em desuso com o caos educacional gritando a todo pulmão. Elas são sim a garantia de um tempo melhor, se forem educadas de corpo, mente e alma. Que sejam!

 

Regina Pundek

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Por uma educação que contribua para a formação de sujeitos pacíficos, amorosos, autônomos, respeitosos, empáticos, atuantes, pensantes, batalhadores, corajosos, lúcidos e decididos. Capazes de atuar no mundo de maneira crítica e sensível.

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Estudar ou Aprender!?

É possível fazer educação sem escola?

Nosso país tem sérios problemas na Educação.  Entre eles cito: a cultura escolar elitista, a falta de visão estratégica, a desinformação da sociedade, interesses corporativistas, fracasso e evasão escolar, despreparo de professores e ainda a baixa qualidade de ensino. Reconhecer esses problemas é o primeiro passo para a mudança.  Um primeiro passo de um longo caminho, mas que garante a  perspectiva da busca por soluções.

Há escolas e professores com uma indignação pungente que utilizam novas práticas, que refletem, que se movem e comovem, que se unem e reúnem em nome de uma educação democrática, libertária e criativa. A necessidade do apoio das comunidades é grande. A divulgação das propostas inovadores, que oferecem luz à questão é uma possibilidade de ajuda.

Vale contar a experiência vivida por quatro brasileiros que viajaram por nove países para conhecer centros de aprendizagem avançados. Essa história rendeu o livro “Volta ao mundo em 13 escolas” que será lançado em outubro, e tem por objetivo “alargar horizontes”, como define o jornalista André Gravatá, usando uma expressão do escritor Manoel de Barros.

O foco no vestibular e na competitividade de um suposto futuro profissional é a grande distorção que impede o fluxo da renovação que vem surgindo. A partir do momento em que se decide não sistematizar um método de trabalho, mas sim fazer com que as crianças construam espontaneamente o aprendizado, surge uma nova maneira de educar.  Educar para a vida e para o hoje é  permitir que o conhecimento seja realmente construído.

Precisamos sair da questão de dificuldade de aprendizagem e olhar para a dificuldade de “ensinagem”.  Só podemos ensinar aquilo que desejam aprender, o resto é memorização e não aquisição de conhecimento. De nada valem os conteúdos programáticos sem o interesse do aluno.  Esse sujeito a quem chamam de estudante, não deseja estudar, visto que o que o que querem lhe incutir cognitivamente não lhe desperta interesse.  Esse sujeito, que merece o respeito de todos, cuja curiosidade deveria ser mantida,  precisa ser visto como um aprendiz!

A diferença entre estudar e aprender traz respostas em si mesma.  Esse é o paradigma a ser quebrado pelas famílias, escolas e professores. A partir desta quebra a educação formará homens e mulheres que primeiramente saibam se expressar, sejam capazes de tomar decisões, de arcar com responsabilidades e de serem felizes.

Não queremos mais uma escola na qual o aluno é treinado para fazer parte de um mundo de produtores calados e conformados.  Não queremos uma escola que disciplina rigidamente, uniformiza no sentido mais amplo da palavra e que tenta anular diferenças. Não queremos mais esta escola que cala a alma de seus aprendizes para encaixá-los num sistema de vencedores e vencidos, opressores e oprimidos.

Para mudar o mundo precisamos rever nossos princípios e valores, perceber que a criatividade e a flexibilidade são práticas que urgem na vida deste novo cidadão, que conhece seus direitos, respeita os alheios e participa da construção de sua história social.

Cabe às famílias compreender esta evolução e encontrar e participar de escolas onde seus filhos sejam aceitos como aprendizes interessados e participativos, características que as crianças possuem naturalmente.  Escolas que fomentem a curiosidade e a liberdade intelectual, e façam da vida escolar uma vida alegre e prazerosa.

Cabe as instituições escolares a renovação de sua prática metodológica, numa quebra de muros para além do concreto.  Cabe aos professores a certeza de que é a firmeza dos propósitos e o amor que asseguram a construção do mundo melhor.

Regina Pundek